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Parabéns, Curitiba de todos os curitibanos
29/03/2019 20:33 em Colunistas

 

Parabéns, Curitiba de todos os curitibanos

Os netos enxergam o avô como um velho, no que têm certa razão. Os meus também são assim. Eles imaginam, aí sem razão, que o avô nunca foi criança. O que me preocupa é que possa haver alguém mais, além deles, pensando que sempre fui assim. Para não pairar nenhuma dúvida, proclamo a todos que já fui um piá que tinha mãe (Ceci) e pai (Elíbio).

Claro que já faz tempo. Foi na década de 50. Meu pai, tinha um Ford 29 e um amigo alfaiate, seu companheiro de caçada. Um dia, fui com ele à alfaiataria desse amigo, que ficava na Avenida Visconde de Guarapuava, ao lado do antigo CPOR, hoje Shopping Curitiba. Após descer do Ford Bigode, não entrei na alfaiataria. Preferi ficar na calçada. Queria assistir a uma formatura militar que estava iniciando em frente ao CPOR.

A farda, não sei exatamente o porquê, sempre teve o poder de atrair a atenção da gurizada. Presenciei a formatura, ouvi os toques de clarim, a banda, assisti ao desfile. Num segundo qualquer, brotou um pensamento no meu subconsciente de piá: “um dia quero ser daquela turma”. Acrescento que fui criado ouvindo relatos da guerra, contados pelo meu padrinho, José Roque Petrelli, pracinha da FEB, um grande contador de histórias. Estavam postos os ingredientes para fazer despertar a vocação para tornar-me soldado.

Em 1964, tendo concluído o ginásio, fui aprovado no concurso para a Escola de Cadetes. Em 1965 fui embora. Deixei para trás uma confortável vida de classe média (para terem uma ideia, meu avô era dono da famosa Cervejaria Providência). Tive que despedir-me da Curitiba dos meus pais, avós, primos e amigos, uma cidade provinciana, com cerca de trezentos mil habitantes.

Passei sete anos interno. Período difícil, agravado pela saudade e pela dificuldade de comunicação da época. O telefone era caro e não funcionava. Ficávamos limitados às cartas e tentávamos saber notícias pelas ondas curtas da PRB-2, que nem sempre conseguíamos sintonizar.

Convivemos com sotaques do Brasil inteiro. Cada um de nós perdeu um pouco do seu jeito de falar e emprestou o seu próprio sotaque aos demais. Os cariocas diminuíram o seu chiado. Os gaúchos passaram a dizer menos “tchês”. Eu perdi o meu “leite quente”.

Éramos poucos curitibanos, de uma quase desconhecida Curitiba. Por isso, sentíamos a obrigação de representar bem a nossa cidade.

Em 1972, concluído o curso da Academia Militar, consegui voltar, já um “guapo tenente”, para servir no quartel do Boqueirão. Pouco mais de dois anos depois, fui mandado embora. Levei a Norma, que se impressionara pelo “guapo tenente”. Iniciava a nossa vida de cigano.

Passamos treze anos fora, vivendo em Praia Grande, Rio de Janeiro, Caxias do Sul, Rio de Janeiro de novo, Lapa (aqui pertinho, mas não é Curitiba), França e mais uma vez Rio de Janeiro.

É sabido que nós, curitibanos, temos algumas manias. Uma delas é a de procurar Curitiba em qualquer lugar onde estivermos. Entretanto, por melhores que fossem as cidades onde vivi, não consegui encontrá-la. Não conseguia achar a Curitiba dos meus pais e avós. Possivelmente por eu estar sempre procurando Curitiba, as pessoas facilmente identificavam a minha origem. Até alguns dos meus apelidos tiveram relação com a nossa cidade.

Permitam revelar como recebi um dos vários apelidos que me deram. Quando cheguei para ser instrutor na Escola de Antiaérea, no Rio, como de praxe, os oficiais foram reunidos no salão de honra para apresentar-me as boas-vindas. As primeiras palavras do comandante da Escola foram fatais: “Temos a satisfação de receber o Capitão Bonat, que é da terra da gralha azul”. Pronto: eu acabara de ser agraciado com mais um apelido. Passei três anos como gralha azul.

No final dos anos 70, nossa cidade começou a tornar-se mais conhecida. Vários amigos passaram a elogiá-la. Minha resposta era um sorriso tímido, que é nossa marca, pois eu não sabia se estavam sendo sinceros ou se apenas pretendiam ser simpáticos.

Um fato que me surpreendeu – e até emocionou – aconteceu na França. Após ter sido apresentado à mãe de um colega de curso, ela perguntou de que cidade eu era. Depois que respondi, ela começou a cantarolar uma música chamada “Monsieur le Council à Curitiba”. Tratava-se de uma canção de famoso compositor francês que visitara a nossa cidade. Segundo a mãe daquele meu colega, ela fizera muito sucesso em toda a França e era ensinada na escola às crianças.

Em 1987, após ter concluído o curso de Estado-Maior, consegui retornar para servir no quartel-general do Pinheirinho. Para minha surpresa, não encontrei a minha Curitiba. Era uma Curitiba que se expandira pelas canaletas do expresso, pelas vias rápidas. Deixara de ser apenas universitária para tornar-se, também, industrial. Transformara-se na capital ecológica. Não era mais a Curitiba dos meus avós. Mas ainda era dos meus pais. Passara a ser, também, dos meus filhos.

Abro um parêntese para revelar-lhes minha face bairrista. Fiz questão que os três filhos – Hamilton Júnior, Luís Gustavo e Juliana – nascessem aqui, mesmo quando eu estava servindo em outra cidade. Corremos alguns riscos, como o de a Juliana quase ter nascido dentro de um Passat, no meio da estrada. Mas valeu a pena.

A nossa segunda estada aqui representou o maior período que vivemos em Curitiba: quase cinco anos. Meados de 91. Nova despedida. Aí, na sequência, fomos para Brasília, Caxias do Sul, Rio, novamente Brasília, Guarujá, novamente Rio e Washington, onde passei para a reserva.

Tomo a liberdade de contar-lhes um último caso, que revela que, da mesma forma que eu procurava Curitiba, ela também me perseguia. Quando servia em nossa embaixada em Washington, dona Edília, minha eficiente secretária, entrou no meu escritório e disse que eu iria gostar muito de uma mensagem que ela havia me repassado.

Tratava-se do relato que um casal americano. Eles contavam que, por ocasião de recente viagem a Foz do Iguaçu, por um problema qualquer, foram informados que teriam de permanecer um dia em Curitiba. Mas gostaram tanto, que resolveram ficar quatro dias. Disseram que jamais imaginaram encontrar, ao sul do Equador, uma cidade como a nossa e recomendavam, aos americanos que viessem ao Brasil, que não deixassem de visitá-la.

Confesso que me deu vontade de pegar o primeiro voo que me trouxesse de volta. Mas isso não demoraria a acontecer. No final de 2005, chegou o momento do definitivo regresso, hora de conferir se eram verdadeiros os elogios que lera e ouvira durante mais de quarenta e um anos perambulando por aí.

Fato é que, a Curitiba que reencontrei, se antes já não era a dos meus avós, agora não era mais dos meus pais. Se antes já era dos meus filhos, tornara-se também dos meus netos. É a Curitiba de hoje, com pinta de metrópole e os consequentes problemas que isso acarreta.

A maior prova de que eram sinceras as palavras que a enalteciam, encontrei ao tomar conhecimento de que mais da metade da nossa população é constituída por curitibanos por adoção. Se ela continua a atrair gente de toda parte, significa que é uma cidade onde é gostoso viver.

Se pudesse me dirigir a essa metade de curitibanos, lhes diria que os de fora sempre foram e continuam sendo bem-vindos. Com certo bairrismo, os cumprimentaria pelo bom-gosto e lhes pediria que não exijam que dancemos a chula tão bem quanto o gaúcho, nem o samba como o carioca e nem o frevo como o pernambucano. Particularmente aos paulistas, diria que admiramos sua música sertaneja, mas. se eles desejarem mesmo encontrar a verdadeira alma curitibana, que procurem ouvir as modinhas caipiras de Nhô Belarmino e de Nhá Gabriela.

Parabéns pelos seus 326 anos, Curitiba de todos os curitibanos!

 

 

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