AMOR DE QUATRO PATAS

Amor de quatro patas

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Hamilton Bonat

Por onde eu andava, no quintal da minha casa, El Guapecón sempre me acompanhava. Acompanhava e obedecia. Na ativa, cheguei a comandar mais de oito mil soldados. Depois, já na reserva, apenas El Guapecón cumpria as minhas ordens.

Tive seguranças competentes e leais. El Guapecón estava longe de ser um segurança competente. Sua principal virtude era a lealdade. Até porque ele sabia ser eu quem lhe pagava a ração. Esse foi o meu compromisso com ele, desde o dia em

que o recolhi da rua, magro, sujo e pulguento.

Mais tarde, alimentado, vacinado e de banho tomado, mereceria até ter pedigree. Resolvi castrá-lo, a fim de evitar que fugisse do espaçoso quintal, atraído por um cio que estivesse perambulando sobre quatro patas pela vizinhança.

Pois hoje, El Guapecón não me obedeceu. Chamei-o, mas não respondeu. Calou-se para sempre. Meu quintal ficou vazio. Não deixou um guapequinha sequer como herdeiro.

Ainda não decidi se vou procurar outras quatro patas para substituí-lo. A gente se apega tanto a esses seres, que teme passar por novos momentos tristes como o de agora.

Mas se um dia eu resolver adotar, que elas sejam as de outro vira-lata, pois, mesmo não sendo eficazes guardiões, eles são extremamente fiéis e amorosos. E, convenhamos, é o seu amor que nos interessa.

Escurece… Paro por aqui. Munido de uma pá, vou cavar a última morada para El Guapecón no território que foi só dele. Sobre ela, bem que caberia uma lápide com o seguinte epitáfio: “Simplesmente amou, sem nada pedir”.

(*) General da Reserva, membro da Academia de Letras José de Alencar