NO TEMPO DAS AEROMOÇAS

 No tempo das aeromoças

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 Hamilton Bonat (*)         

A fila é impacientemente lenta.  Dobro a curva. Agora consigo enxergar a porta. Junto a ela, vislumbro duas comissárias de bordo. Rosto de boneca, corpo de boneca, cabelo de Barbie, nem parecem humanas. Tenho a sensação de que a fila anda mais devagar, tal a vontade de me aproximar para sentir o seu perfume.

Chego, enfim, à distância de um passo daqueles sorrisos ensaiados inúmeras vezes frente ao espelho.  Seja bem-vindo, repetem pela enésima vez naquele dia. Pronunciam as palavras de tal forma, que todo passageiro acredita ser, dentre tantos, o único merecedor daquela gentileza.

Dentro do avião, um corredor estreito separa as seis poltronas alinhadas em dezenas de fileiras. Elas dão ideia da enormidade daquele aparelho, onde a tecnologia está em cada detalhe. Enquanto procuro o meu lugar, desperta a eterna apreensão: tudo o que o homem cria pode falhar. Como não posso dar meia-volta, acomodo-me no assento. Nele, encontro a prova da falibilidade humana: o cinto de segurança. Ele não estaria ali, se acidentes fossem apenas uma teoria.

Meu vizinho observa-me com olhos de primeira viagem. Cumprimento-o com um sorriso de veterano dos ares. Sei, porque já fui calouro, o que se passa em sua cabeça. Ele se pergunta como aquela coisa vai conseguir sair do solo carregando, além do próprio peso, o de centenas de pessoas e de sua bagagem. Os veteranos, mesmo sabendo que aquela tonelagem toda vai decolar, têm uma preocupação ainda mais grave: de que maneira ela retornará ao solo? Mas veterano que se preze não revela seu temor a ninguém.

O avião começa a se movimentar. Ei-las de volta! Posicionadas no corredor, as aeromoças (assim ainda as denominam os que têm muita milhagem) transmitem por gestos as regras de segurança. Meu vizinho presta atenção a tudo. Veteranos também as olham, mas somente para admirá-las. As veteranas fazem pouco caso. Abrem a revista de bordo e fingem indiferença, gesto que não consegue esconder sua inveja.

Atingimos a altura de cruzeiro. Para demonstrar tranquilidade, finjo que durmo, e acabo pegando no sono de verdade. Sonho que estou num avião. De repente, do teto caem máscaras. É tudo muito rápido. Quando me dou conta, estou na fila da entrada no céu. Um senhor de barba branca, após identificar cada ex-vivente, indica-lhe a direção. A da direita conduz ao paraíso. A da esquerda leva a uma rampa descendente, em cujo sopé satanás aguarda. As aeromoças estão logo à minha frente. O homem de barba indica-lhes o caminho da direita. Chega a minha vez. Gostaria de segui-las… “Suco ou refrigerante?”, uma voz ensaiada me desperta.

Pousamos um pouso tranquilo. Em alguns países, nessa hora, é comum os passageiros aplaudirem o piloto. Brasileiros não têm esse costume. Se tivéssemos, provavelmente, aplaudiríamos as nossas aeromoças.

À porta do avião, ouço pela derradeira vez aquela voz bem treinada: “Tenha um bom dia”. Não sei se meu dia será bom. Só sei que vou correndito a uma igreja pedir perdão pelos meus pecados. Assim, quando chegar a minha hora, o porteiro da branca barba me apontará o caminho das aeromoças. Mas, sinceramente, não estou certo de que elas estarão por lá!

(*) General da Reserva, membro da Academia de Letras José de Alencar