CARTA AOS/ÀS COMPANHEIROS/AS DO MOVIMENTO FÉ E POLÍTICA

Carta aos/às companheiros/as do Movimento Fé e Política 

Estamos a uma semana do nosso encontro do movimento no Recife. Poucos dias depois, teremos em Campina Grande o encontro nacional (de 21 a 24).

Marcelo Barros

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O Fé e Política nasceu em 1989 como uma proposta dos cristãos de esquerda, gente de vários partidos que têm bases mais populares. As pessoas queriam criar um espaço de aprofundamento da fé cristã e de uma espiritualidade vividas na luta pacífica pela transformação social da realidade. No início, fizemos vários retiros com companheiros/as de vários Estados do Brasil e pertencentes a várias Igrejas cristãs. Pouco a pouco, se criaram núcleos estaduais e locais que garantiam a continuidade da caminhada nos intervalos dos encontros nacionais que se fazem mais ou menos a cada dois anos.

Há alguns anos, a CNBB criou o Centro de Fé e Política Dom Helder Camara. É um centro de estudos e reflexão que promove cursos em vários locais do país. Como funcionam de forma mais contínua, se chamam “escolas de fé e política”. Institucionalmente o Movimento Fé e Política é um movimento de leigos independente das estruturas eclesiásticas. Mas, é claro que dialoga com as escolas de fé e política e com todos os que se colocam na mesma direção.

O núcleo do Fé e Política do Recife nasceu há pouco porque todos sentimos a necessidade de nos abastecer espiritualmente nesse momento tão pesado e exigente que vivemos no plano social e político do país. Ainda está engatinhando e o primeiro encontro foi marcado pelo anseio unânime de reforçar a esperança e nos unir em prol, não da defesa de um partido e sim de um projeto social e político de mais justiça para o Brasil.

O momento atual exige de nós unidade e capacidade de nos articularmos para ajudar nas mobilizações dos movimentos sociais que, depois de algum tempo, menos ativos, voltam a se articular e ganham visibilidade e uma voz praticamente uníssona em defesa da democracia e contra o golpe. Sabemos que, por trás de toda essa luta de desestabilização do país não está somente o impedimento da presidente, mas interesses econômicos do Império, como o destino do pré-sal, a quebra da Petrobrás e mudanças violentas nas leis sociais que defendem os trabalhadores.

Como pessoas de fé somos chamados a, como diz o Evangelho, “acolher os sinais dos tempos”. Esse tempo de turbulência social e político pelo qual atravessa nosso país é doloroso e nocivo a todos. Essa onda de violência e intolerância de direita é perigosa e nada tem de positivo. No entanto, ela parece estar provocando como reação uma unidade maior dos movimentos populares e uma mais viva consciência de que é urgente um diálogo mais efetivo e permanente entre os poucos parlamentares realmente comprometidos com o serviço ao povo e as organizações sociais representativas da maioria da população. Quem sabe se até o governo e a cúpula do PT aprendem finalmente que precisam ir além dos conchavos a que são obrigados para garantir o que chamam de “governabilidade”no atual sistema político e precisam muito mais de manter canais abertos de diálogo com os movimentos sociais a serviço de toda a sociedade.

Nesse contexto, nós do Recife, celebraremos nesses dias (11 de abril) 52 anos em que Dom Helder Camara nos foi dado como arcebispo de Olinda e Recife e como nosso profeta inspirador nesse caminho de ligar fé e compromisso social e político. Será que essa data pode nos sugerir alguma coisa de novo?

Nessa linha, gostaria de lembrar uma iniciativa do Dom que me pergunto se não poderíamos atualizar para hoje. É uma dessas ideias proféticas, entre tantas que ele permanentemente suscitava e que servia como mobilização das pessoas no caminho da justiça e paz. Estou falando do que ele chamava de “animação das minorias abraâmicas”.

É preciso, dizia ele, assumirmos ser minorias. E “abraâmicas”, porque como na Bíblia, o patriarca Abraão, somos pouquíssimos, somos como Abraão impotentes e nos sentimos meio estéreis, mas a fé nos revela que aquilo que, “aos olhos do mundo parece desprezível e fraco, Deus escolheu para confundir os sabidos e fortes do sistema” (Paulo aos coríntios).

Desde a metade dos anos 60, portanto, muito cedo no seu ministério no Recife, ele já começa a falar em “minorias abraâmicas. Em linguagem de hoje, são grupos livres e espontâneos formados por pessoas que se dispõem a nadar contra a corrente e trabalhar por um novo mundo possível. Gente de todas as tradições espirituais ou sem nenhuma pertença religiosa. Ele formula alguns princípios fundamentais como a superação dos nacionalismos, a abertura a todas as dimensões do humano. Propõe que se parta sempre do interesse e da causa dos mais sofridos e vítimas da sociedade dominante. E pede que, independentemente de estruturas e sem esperar ordem de ninguém nos metamos em campo a serviço da paz e da justiça, do diálogo intergeneracional e da defesa de uma nova economia que hoje chamamos de ecossocial.

Sem, de modo algum, pretender criar nenhuma nova estrutura ou movimento (já temos tantos), será que poderíamos aprofundar como seria essa espiritualidade para o movimento Fé e Política? Se quiserem, eu ouso organizar, a partir da Bíblia e da tradição cristã, um esquema que provoque a reflexão de todos.

Maria Fernanda Milicich Seibel <mfmseibel@gmail.com

 http://www.marcelobarros.com/2016/04/conversa-terca-feira-06-de-abril-2016.html