UMA FORÇA MAIOR

Uma força maior

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Hamilton Bonat (*)

“Por motivo de força maior, não estamos atendendo. Reabriremos quando possível” Mais uma vez (a quinta, em menos de um ano), lá estava o aviso. Mais uma vez, tive que procurar outra agência para postar os livros que me haviam encomendado. Mais uma vez, entendi a mensagem escondida nas entrelinhas daquele pedaço de papel. Mensagem triste, que reflete a realidade nacional. Mais uma vez, a agência fora assaltada. Mais uma vez, a força do crime mostrou-se maior do que a força da sociedade em combatê-lo.

Mas o que despertaria a atenção dos assaltantes num simples posto do correio? É que ele é também um banco, uma espécie de filial da Caixa e do Banco do Brasil, sem contar, entretanto, com a segurança de uma agência bancária.

Por falar nisso, avisos como aquele não são únicos. Eles têm-se multiplicado, aos milhares, por todo o país. Podem ser encontrados desde em pequenos comércios de bairro, até em caixas eletrônicos. Já chegaram aos cofres públicos. Estão, mesmo que virtualmente, no edifício sede da Petrobras, empresa que já foi de todos os brasileiros, mas que agora pertence a alguns poucos empoleirados no poder. Rouba-se como “nunca na história deste país”. Um rico país que empobrece.

Tirar do rico para dar ao pobre. Eis a desculpa esfarrapada que os atuais poderosos da política nacional precisam para justificar suas intenções totalitárias. Tentam fazê-la aceitável, a fim de manipular mentes. As sobras da rapinagem oficializada vão parar, a título de distribuição de renda, no bolso de miseráveis. As migalhas, que recebem como forma de cabresto eleitoral, comprometem sua perspectiva de futuro. Não apenas a sua, mas a da própria Nação, pois ela se torna cada vez menos competitiva. Nos contentamos em ser meros fornecedores de commodities. Não investimos em tecnologia e infraestrutura, muito menos em moralidade e ética.

Sequer a poderosa Petrobras conseguiu escapar das garras ávidas por riquezas dos que não as produzem, mas detêm o poder. Ferida em suas entranhas, descapitalizada e desacreditada, quase falida, ela não consegue mais caminhar com as próprias pernas. Sem contar a falta de visão estratégica dos que a comandam, que não enxergam que os combustíveis fósseis estão com os dias contados.

Mas o que tem um simples posto de correio e seus funcionários a ver com isso? Tudo! Quando os que mandam no país pregam a falsa apologia de uma cruzada a Robin Hood, a criminalidade sente-se no direito de tirar do rico para dar ao pobre. No caso da agência em questão, seu dono é considerado um capitalista explorador do povo trabalhador.

O curioso é que aquela agência não é uma franquia. Pertence aos Correios mesmo, cujo patrimônio já vem sendo dilapidado há algum tempo. Ao que parece, a empresa vem sendo roubada tanto por ladrões engravatados quanto pelos sem gravata.

Após sofrer o quarto ataque, o posto ficou fechado durante cerca de um mês. Estive lá quando reabriu. Havia um guarda na entrada. Não sei para quê, pois estava desarmado. Dos três atendentes, só um permaneceu. As duas simpáticas jovens tinham sido substituídas. Em depressão, foram parar num sofá de psicanalista.

Agora, por ocasião do último assalto, o bando fortemente armado obrigou que o guarda permanecesse humilhantemente ajoelhado. Mesmo assim, se a agência reabrir, ele estará lá, desarmado como sempre. Mas tenho dúvidas se os demais funcionários voltarão. Devem estar aterrorizados. Se isso se confirmar, logo nos deparemos com um novo aviso: “Derrotada por uma força maior, esta agência foi definitivamente fechada. Para maiores informações ou reclamações, ligue para Brasília”. E vida que segue… Morro abaixo, mas segue.

Este artigo foi publicado em Wednesday, 23/12/2015 e está arquivado dentro deSegurança Pública. Você pode passar para o fim e deixar um comentário.