O MUNDO CLAMA POR UM ANJO DA GUARDA

O Mundo clama por um Anjo da Guarda

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Hamilton Bonat (*) 

Dia de festa no Anjo da Guarda. O “Anjo” (assim a escola é carinhosamente chamada), como faz todos os anos, homenageava as etnias que deram origem à atual população do Paraná.

Logo na chegada, a tarja preta sobre a bandeira azul, branca e vermelha (a Bleu-Blanc-Rouge), no estande da França, atraía a atenção. Aquele pequeno pedaço de pano valia mil palavras. Entre tantas, significava espanto, tristeza e solidariedade.

As crianças, provavelmente, não se deram conta. Ainda bem. É muito cedo para isso. Até porque, elas estavam ali para exaltar a fraternidade. Em um coro de mais de cinquenta vozes, elas entoaram canções representativas dos diferentes povos, começando pelos indígenas, seguida pelos portugueses, negros e pelos que os sucederam, até chegar aos holandeses. A grand finale – um samba – celebrou o sabor da saudável e gostosa salada de frutas em que nos tornamos. Uma só gente, que aprendeu a se respeitar e a viver em harmonia.

Não estava explícita, apenas subentendida, a homenagem às primeiras gerações, que superaram tremendas dificuldades que lhes foram impostas. Os negros vieram para cá na condição de escravos. Os demais, fugidos da fome e das guerras, vivenciaram uma semiescravidão. Mas nada de rancor, nenhum ódio. Ao contrário, a única mensagem era de irmandade entre os homens, todos, sem exceção.

Após a apresentação musical, os alunos se dirigiram ao estande do “seu país”, onde contavam um pouco dos seus costumes aos que os visitavam. A bela festa foi encerrada com números de danças típicas.

É de se louvar o esforço de professores e alunos. No simples fato de as canções terem sido exibidas em dez idiomas diferentes, tem-se ideia da dimensão do desafio. Três apenas são suficientes para resumir o grau de dificuldade: ucraniano, japonês e árabe. Fácil, não? Obviamente, meus ouvidos de avô perceberam que Guilherme e Rafael – meus netos – foram dos poucos a cantar sem nenhum sotaque, em todas as línguas.

Mas deixemos um pouco de lado essa inocente brincadeira de “papo-avô-coruja”. Voltemos à tarja preta, pois creio que ela mexeu com o subconsciente dos avós. Não só deles, mas também de mamães e papais. Num momento qualquer, uma preocupação deve ter passado pelo subconsciente de todos: que mundo iremos deixar para os nossos netos?

A barbárie, que no dia anterior havia levado as trevas à Cidade Luz, é apenas a face mais recente e visível de uma crescente desunião. Gostaríamos, mas obviamente não temos este poder, de resolver a grave crise que vem se alastrando pela Europa, Oriente Médio e África. O que se pode fazer, quando notícias nos dão conta de que, por lá, em muitos bancos escolares, as crianças recebem mensagens exatamente opostas àquela que foi transmitida pelos professores do Anjo?

Só nos resta torcer (rezar, orar, suplicar) para que o vento não sopre em nossa direção, trazendo aquelas tenebrosas nuvens. Que elas fiquem por lá mesmo, até se dissiparem um dia. O que gostaríamos, de verdade, antes que seja tarde, é que o vento soprasse em sentido contrário e para lá empurrasse a nuvem radiante que cobria o “Anjo” no último dia 14, e que cobre igualmente milhares e milhares de outras escolas brasileiras. Mais do que nunca, o mundo anda precisando de um Anjo da Guarda.

(*) General da reserva, membro da Academia de Letras José de Alencar e da Academia de Cultura de Curitiba.