BODAS: SEGREDO OU MILAGRE ?

Bodas: segredo ou milagre?

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Hamilton Bonat (*)        

Há pouca coisa mais nostálgica do que as seções intituladas “Você Sabia?”. Era comum encontrá-las em jornais e revistas. Seguiam-se, então, informações pouco relevantes como: “Você sabia que um casal, quando completa um ano junto, comemora Bodas de Papel?”.

Claro que vocês, meus leitores, sábios que são, sabem que boda é uma celebração de casamento. Que é uma palavra mais usada no plural – bodas – e se refere aos votos matrimoniais feitos no dia do casamento. Sabem também que é tradição comemorar aniversários de casamento. Entretanto, talvez não saibam, como eu não sabia antes de consultar o professor google, que o termo tem sua origem no latim “vota”, que significa promessa. Pois a promessa parece estar cada vez mais difícil de ser cumprida.

“Milagre! Conseguimos nos aturar durante cinquenta dias!”, comemora um casal moderno. Suportar um ao outro sempre foi difícil, mas está virando exceção. Qualquer desavença faz esquecer do prometido diante do altar, perante familiares e amigos. Certo ou errado, antigamente não era bem assim. Casamentos eram para sempre, apesar das rixas, pequenas umas, abissais outras.

Foi nisso que pensei quando, recentemente, estive na festa de bodas de ouro de um casal amigo. Recordei Ogden Nash e sua definição de casamento como sendo “uma aliança entre duas pessoas: uma que nunca se lembra dos aniversários e outra que nunca os esquece”. Existem dezenas de outros pensamentos, uns sérios, outros engraçados, que buscam definir essa instituição secular, atualmente em crise. Entretanto, são poucos sobre “cinqüenta anos de casamento”. Por ser um evento raro, possivelmente dispense qualquer conceituação. Talvez por isso, poucos filósofos, poetas, sábios, futurólogos e religiosos se aventuraram em conceituá-lo.

Ele é autoexplicativo. Encerra toda uma vida, vivida a dois. Trata-se de acontecimento único e singular. Um momento que funde presente, passado e futuro. Na verdade, mesmo sem dizer uma só palavra, quem transmite u’a mensagem, lá do alto de meio século de convivência, são os cinquentenários “noivos”.

Lembrei, então, que todos nós, pelo menos uma vez, desejamos que o tempo tivesse parado em algum momento da nossa existência. Obviamente numa ocasião feliz, como a do nascimento de um filho ou de um neto. Se eles, os cinquenta vezes “noivos”, tivessem essa faculdade, suponho que escolheriam a inesquecível data de suas bodas. Se o tempo tivesse parado naquele dia, eles teriam a felicidade de ter, comemorando com eles, as pessoas muito queridas que lá estavam. Mas o tempo não para.

Ainda bem, pois se o relógio tivesse deixado de funcionar, sua vida se resumiria a uma fotografia amarelada. Não teria se transformado num belo filme. Uma película de muitos capítulos alegres, outros nem tanto. De emoções, de incertezas, de angústias, de vitórias. De alguns personagens que já partiram, enquanto muitos outros chegaram. Se os ponteiros do relógio tivessem parado, pouco teriam a comemorar. Não haveriam filhos, netos e bisnetos, nem tantos novos amigos.

Mas, afinal, qual o segredo de quem completa cinquenta anos junto? Ouso supor que ele esteja no fato de o casal ter procurado ser mais do que protagonista. De ter sido, ao mesmo tempo, diretor do filme da sua vida. Um diretor com uma visão otimista do futuro. Mas a verdade é que nem mesmo nas antigas seções “Você sabia?” a gente encontraria a resposta.

Aliás, caro e sábio leitor, você sabia que, aos 75 anos de casado, comemoram-se Bodas de Brilhante? Nesse caso, não há segredo. É milagre mesmo!

(*)  General da Reserva, ocupa a Cadeira 19 da Academia de Letras José de Alencar