NA BARBEARIA COM PAVLOV

Na barbearia com Pavlov

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Hamilton Bonat (*)

Gegê abriu a porta, entrou, saudou a todos com um cordial bom-dia. Acomodou-se como pôde numa poltrona que, pelo puído do espaldar, devia contar longos anos de bons serviços prestados. Precisava matar o tempo. Pegou uma daquelas revistas que toda barbearia tem. Seu conteúdo se resume a um caminhão de fotografias, enquanto as palavras caberiam numa Romi-Isetta. As pessoas não se importam, mesmo que elas não sejam a mais recente versão, pois ninguém vai lá para aumentar sua cultura.

As cerca de cem personalidades, que lotam as páginas desse tipo de publicação semanal, parecem zombar do leitor, se é que podemos chamar de leitor a quem apenas contempla imagens. Elas exibem-se, geralmente, em cinematográficos iates, paradisíacas ilhas, praias ou suntuosos castelos, com um alvíssimo sorriso de felicidade plena, um bronzeado de quem não precisa trabalhar, corpos esculturais abrilhantados por altíssimos quilates e embrulhados para presente em coloridas roupas de grife. O luxo é tanto, que não se consegue imaginá-las acomodadas numa poltrona puída, e nos faz questionar: será que só eu sou pobre, feio, careca e barrigudo?

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Mas Gegê não se importava com essas trivialidades. Deixou apenas os olhos percorrerem as belas silhuetas dos famosos, enquanto mantinha os ouvidos atentos ao cliente que lhe antecedera. Pelos cabelos brancos, que o barbeiro caprichosamente cortava, tratava-se de um quase setentão como ele. O homem mostrava-se indignado com o aumento da gasolina, da energia e com a descoberta de que mais outros bilhões tinham sido roubados da Petrobras. E a inflação, então… Chegou até a conclamar pela volta os militares.

Gegê sentiu as orelhas esquentarem… Elas escutavam, mas somente pela coincidência de estarem ali naquele momento, enquanto os infelizes ouvidos do barbeiro o faziam por dever de ofício. Mas estavam acostumados, pois barbearias ou salões de beleza servem, ao mesmo tempo, como consultórios sentimentais. Saber ouvir e pouco falar, eis o segredo de um bom “fígaro”. Se substituíssem sua cadeira por um sofá de psicólogo, não estariam cometendo heresia alguma. Mesmo assim, o bom barbeiro resolveu aumentar o ritmo da sua tesoura, pois sabia que aquele seria um papo sem fim, como parece ser o destino da operação lava-jato.

De repente, uma surpresa para Gegê! Na tal revista das belas celebridades, quem diria, encontrou uma página inteirinha de “citações”. Ao percorrê-las, deparou-se com um pensamento de Peter Veres (1897-1970), político e escritor húngaro: “Um cachorro velho não deve latir mais, a partir do momento em que não for capaz de morder”. Caía feito uma luva para aquela ocasião. Por um instante, Gegê pensou em ler em voz alta, mas conteve-se. Seu tempo de latir já passara.

O cachorro de Peter Veres fez com que recordasse de outros cachorros, os de Pavlov. Em sua experiência, ele tocava uma sineta cada vez que os bichos eram alimentados. Com o tempo, os cães começaram a associar as badaladas à comida. Chegavam a babar, famintos, só de ouvir o sino, mesmo que o prato estivesse vazio. O objetivo do médico russo era, o que acabaria conseguindo, comprovar cientificamente a possibilidade de se alterar o comportamento das pessoas por meio dos chamados reflexos condicionados.

O barbeiro, enfim, terminou o serviço. Gegê fez questão de levantar-se ao mesmo tempo que a cabeça embranquecida. Não podia perder aquela oportunidade.

“O amigo parece interessar-se muito por política. Já ouviu falar nos cães de Pavlov?” E emendou: “E no bolsa-família?”

O barbeiro fingiu que não entendeu…

Este artigo foi publicado em Sunday, 17/05/2015 e está arquivado dentro de Nacional,Política