HELENA, UMA SANTA DE 1º DE ABRIL

Helena, uma Santa de 1º de Abril

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Hamilton Bonat (*)         

Ainda criança, li Robinson Crusoe. Fiquei impressionado com o personagem de Daniel Defoe, um náufrago que passou 28 anos em imaginária ilha remota, sobrevivendo à fome e aos canibais, até ser resgatado. Desde então, tornei-me fã das aventuras, reais ou não, dos que habitam pequenas e isoladas ilhas.

Convém salientar que, mesmo em livros de ficção, há um pouco de história. Mas, já que hoje é 1º de abril, também é bom alertar que obras de cunho histórico trazem embutida alguma ficção, que não chega a constituir mentira. São, simplesmente, dependendo da intenção do autor, posicionamentos dúbios, por vezes tendenciosos, a respeito de acontecimentos quaisquer.
Há um clássico sobre ilhas isoladas, Santa Helena, de significativo valor histórico. O autor narra os detalhes do dia-a-dia de Napoleão Bonaparte em sua última morada, um longínquo pedaço de terra no meio do Atlântico. Seu litoral rochoso dificultava a aproximação de possíveis navios de resgate. Nela, o Pequeno Corso, acompanhado de reduzido séquito, incluindo amantes, passou a viver em 15 de outubro de 1815. Foi o seu segundo (o primeiro fora em Elba) e derradeiro exílio. Ali ele acabaria morrendo, em 5 de maio de 1821, vitimado por um câncer gástrico, embora franceses, sem convincente comprovação, afirmem ter sido envenenado pela aplicação de excessivas doses de arsênio por seus “carcereiros” ingleses. O final do livro é surpreendente e conduz o leitor a esta conclusão. Seriam meras conjecturas de além-túmulo ou simplesmente ficção? Ou ainda, como preferem alguns, uma licença poética a que se permitiu o autor, eufemismo que os escritores se autoconcedem para exagerar um pouco, para mais ou para menos, ou simplesmente contar uma mentirinha que atenda aos seus propósitos.
Fato é que os ingleses o levaram para lá a fim de evitar que se repetisse o acontecido quando do seu primeiro exílio. Elba, com seu litoral acessível, localizada no Mediterrâneo, muito perto da França, havia facilitado a sua fuga e o consequente retorno a Paris para governar por mais 100 dias. O detalhe é que, para Elba, Napoleão pôde levar uma escolta de 400 soldados. Em Santa Helena, nenhuma regalia, além das amantes, évidemment ! Entretanto, até mesmo as amantes podem não ser reais, ficando por conta da licença poética do autor, uma mentirinha a mais para apimentar sua obra.
Na verdade, pequenas ilhas isoladas são simplesmente pequenas ilhas isoladas, onde habitam simpáticos ilhéus. Elas têm o poder de aguçar a nossa fantasia. Nossas mentes as concebem como bucólicos e paradisíacos pedaços de terra. É assim que as imaginamos. Ao mesmo tempo, num processo de seletiva boa vontade, esquecemos que em sua exuberante natureza se escondem milhões de invisíveis insetos, mosquitos entre eles, mais temíveis do que uma faminta alcateia, de cujos leões temos, ainda que remotas, chances de fugir. Algumas representam importantes pontos de apoio à navegação marítima e aérea. A intrigante ilha de Páscoa, com suas misteriosas estátuas, perdida no colossal Pacífico, é uma delas.
Mas ilhas, pequenas ou grandes, próximas ou afastadas, devido às limitações que lhes impõem a geografia, não conseguem competir com os gigantescos continentes, particularmente com nações que dispõem de extenso território. De alguma delas tornam-se dependentes. Não é possível imaginar, por exemplo, Santa Helena ou Elba comandando a Europa. Essa é a regra. Mas, como sabemos, há exceções para comprovar as regras. Eis o ponto!
Infelizmente, o Brasil vem comprovando a regra. Estamos subordinados a uma ilha, não tão pequena, mas uma ilha, cuja área é muito menor do que a da maioria dos nossos estados. Cuba foi dominada por espanhóis e por americanos. Ao se ver livre deles, teve que entregar-se aos comunistas russos que, ao afundarem o seu rico país, levaram ao naufrágio a pobre Cuba e sua população submissa. Mas o intrigante é que, mesmo assim, ela nos dá ordens. Nossos governantes vivem lá, beijando as mãos sujas de sangue dos ditadores mais longevos das Américas. Mais ainda, a eles entregam boa parte dos escorchantes impostos que sugam do suor dos brasileiros que realmente trabalham, daqueles que não vivem às custas do partido dominante, que dos trabalhadores só tem o nome.,
Da ilha, veio a ordem para entregar duas refinarias da Petrobras a Evo Morales, primeiro indício do que aconteceria com a nossa maior empresa. Por influência da mesma ilha, tivemos que ajudar o bispo-companheiro que presidia o Paraguai, concordando em pagar mais pela energia de Itaipu. Submissos à ilha, tratamos as FARC como simples movimento social e não como o produtor da droga que está destruindo o futuro da nossa juventude. A consequência está nas bombas de combustível, nas contas de luz e na violência que se alastra por todo o país.
Por isso tudo, tenho hoje razões de sobra para não mais me interessar por ilhas e suas histórias. Aliás, hoje seria o dia propício para mais uma fala presidencial. A presidente poderia até negar o que consta nos dois parágrafos anteriores. Daríamos a ela o direito à licença poética para que, mais uma vez, dourasse a sua pílula. Creio que nem panelaço haveria. Afinal, hoje é 1º de abril!
(*) General da Reserva, membro da Academia de Letras José de Alencar e da Academia de Cultura de Curitiba